sexta-feira, 26 de novembro de 2010

o (re)encontro

Eis que digo que é no caos que são feitas as maiores descobertas. Ela andou algumas milhas sobre o chão cinza, o céu cinza. Jazia em seu rosto um sorriso cinza que cheirava a incompletude. Pôs-se a procurar outras cores debaixo das solas do sapatinho cor de cereja que a acompanhavam desde o início do tapete de neblina pelo qual caminhava. Não compreendia onde teria ido parar o Verde. Sabia que ele não a deixaria por qualquer bobagem, pois haviam selado um compromisso de cumplicidade. E, sendo assim, já não tinha mais esperanças de encontrá-lo.
Foi quando ela sentiu o dedinho da Palavra cutucar o seu nariz. Vinham sem notar uma a outra até que a Palavra avistou uma Pinta muito esquisita no nariz da menina e resolveu parar. Cutucou, mas a Pinta não se mexia. A Pinta morava naquele nariz há tanto tempo que já não conseguia mais saltar dali. O medo tornara-se maior do que a vontade de mudar de casa, mudar de vida.
Então a Palavra começou a imaginar que, se aquela Pinta vivia no nariz da menina há tanto tempo que já não podia se desgrudar mais, ela também já não seria mais capaz de escapar. E ao lado da menina, com o dedinho na Pinta grudada, permaneceu.
Muitas aventuras passaram por elas naquela estradinha acinzentada, até que finalmente encontraram uns tijolinhos amarelos que davam início a uma outra estrada. A estrada era tão, tão apertada, que a menina e a Palavra tinham que se grudar igual a chiclete, pareciam uma só.
Estavam a descansar, cada uma em sua rede de linho, quando a menina viu passar o Verde. Ela mal podia acreditar! Estendeu a sua mãozinha o mais que pôde, mas não conseguia alcançá-lo. Tentaram se comunicar, mas não era possível. Ele não mudou de estrada, e, de onde estava, não podia ouvir porque a menina resolvera seguir os tijolinhos amarelos.
Naquele instante os tijolinhos amarelos e a estrada cinza começaram a se desfazer e foram todos jogados para fora. Não se reconheciam um ao outro, o Verde e a menina, mas sentiram a sensação de que se conheciam de algum lugar. Um mundaréu de contradições corpóreas: as mãos suadas e frias, o coração acelerado e tomado de uma paz única, os lábios secos e a boca enchendo-se d'água. E foi amor à "primeira" vista. Amor que se instala no peito de repente, trazendo segurança e intimidade de anos junto à certeza de que tudo ficará bem. Como se esta história tivesse começado há muito tempo atrás, antes mesmo de que eles tivessem se (re)encontrado.

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