No capitulo VII de "Os afogados e os sobreviventes", Primo Levi responde às três perguntas frequentemente feitas aos judeus (sobreviventes ou mortos): por que não fugiram? por que não se rebelaram? por que não escaparam da captura "antes"? Segue o trecho final da sua resposta:
É preciso estar em guarda contra os juízos a posteriori e os esteriótipos. De modo mais amplo, é preciso evitar o erro que consiste em julgar épocas e lugares distantes com o metro que prevalece aqui e agora: erro tão mais difícil de evitar quando maior for a distância no espaço e no tempo. É esse o motivo pelo qual para nós, não especialistas, é tão árdua a compreensão dos textos bíblicos e homéricos, ou mesmo dos clássicos gregos e latinos. Muitos europeus de então, e não só europeus, e não só de então, se comportaram e se comportam como Palmström, negando a existência das coisas que não deveriam existir. Segundo o senso comum, que Manzoni sagazmente distinguia do "bom senso", o homem ameaçado antecipa-se, resiste ou foge; mas muitas ameaças de então, que hoje nos parecem evidentes, naquela época eram veladas pela incredulidade intencional, pelo recalque, pelas verdades consolatórias generosamente trocadas e auto-enganosas.
Aqui surge a pergunta obrigatória: uma contrapergunta. Em que nível de segurança vivemos nós, homens do fim do século e do milênio? E, mais em particular, nós, europeus? Disseram-nos, e não há motivo para duvidar, que para cada ser humano do planeta está reservada uma quantidade de explosivo nuclear igual a três ou quatro toneladas de trinitrotolueno; se fosse usado mesmo só um por cento disso, imediatamente haveria dezenas de milhões de mortos bem como lesões genéticas espantosas para toda a espécie humana, ou melhor, para toda a vida sobre a terra, talvez com exceção dos insetos. Além disso, é pelo menos provável que uma terceira guerra generalizada, mesmo convencional, mesmo parcial, se travaria em nosso território, entre o Atlântico e os Urais, entre o Mediterrâneo e o Ártico. A ameaça é diferente daquela dos anos 1930: menos próxima, porém mais vasta; ligada, segundo alguns, a um demonismo da História, novo, ainda indecifrável, mas desligada (até agora) do demonismo humano. Está voltada contra todos e, portanto, é particularmente "inútil".
E então? Os medos de hoje serão menos ou mais fundados do que os daquela época? Diante do futuro somos não menos cegos do que nossos pais. Suiços e suecos têm os refúgios antinucleares, mas o que encontrarão quando saírem a céu aberto? Há a Polinésia, a Nova Zelândia, a Terra do Fogo, a Antártida: talvez fiquem ilesas. Obter passaporte e vistos de entrada é muito mais fácil do que no passado: por que não partimos, por que não abandonamos nosso país, por que não fugimos "antes"?