sábado, 12 de março de 2011

e agora, José?

     No capitulo VII de "Os afogados e os sobreviventes", Primo Levi responde às três perguntas frequentemente feitas aos judeus (sobreviventes ou mortos): por que não fugiram? por que não se rebelaram? por que não escaparam da captura "antes"? Segue o trecho final da sua resposta:

     É preciso estar em guarda contra os juízos a posteriori e os esteriótipos. De modo mais amplo, é preciso evitar o erro que consiste em julgar épocas e lugares distantes com o metro que prevalece aqui e agora: erro tão mais difícil de evitar quando maior for a distância no espaço e no tempo. É esse o motivo pelo qual para nós, não especialistas, é tão árdua a compreensão dos textos bíblicos e homéricos, ou mesmo dos clássicos gregos e latinos. Muitos europeus de então, e não só europeus, e não só de então, se comportaram e se comportam como Palmström, negando a existência das coisas que não deveriam existir. Segundo o senso comum, que Manzoni sagazmente distinguia do "bom senso", o homem ameaçado antecipa-se, resiste ou foge; mas muitas ameaças de então, que hoje nos parecem evidentes, naquela época eram veladas pela incredulidade intencional, pelo recalque, pelas verdades consolatórias generosamente trocadas e auto-enganosas.
     Aqui surge a pergunta obrigatória: uma contrapergunta. Em que nível de segurança vivemos nós, homens do fim do século e do milênio? E, mais em particular, nós, europeus? Disseram-nos, e não há motivo para duvidar, que para cada ser humano do planeta está reservada uma quantidade de explosivo nuclear igual a três ou quatro toneladas de trinitrotolueno; se fosse usado mesmo só um por cento disso, imediatamente haveria dezenas de milhões de mortos bem como lesões genéticas espantosas para toda a espécie humana, ou melhor, para toda a vida sobre a terra, talvez com exceção dos insetos. Além disso, é pelo menos provável que uma terceira guerra generalizada, mesmo convencional, mesmo parcial, se travaria em nosso território, entre o Atlântico e os Urais, entre o Mediterrâneo e o Ártico. A ameaça é diferente daquela dos anos 1930: menos próxima, porém mais vasta; ligada, segundo alguns, a um demonismo da História, novo, ainda indecifrável, mas desligada (até agora) do demonismo humano. Está voltada contra todos e, portanto, é particularmente "inútil".
     E então? Os medos de hoje serão menos ou mais fundados do que os daquela época? Diante do futuro somos não menos cegos do que nossos pais. Suiços e suecos têm os refúgios antinucleares, mas o que encontrarão quando saírem a céu aberto? Há a Polinésia, a Nova Zelândia, a Terra do Fogo, a Antártida: talvez fiquem ilesas. Obter passaporte e vistos de entrada é muito mais fácil do que no passado: por que não partimos, por que não abandonamos nosso país, por que não fugimos "antes"?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

uma frase

Gosto do jeito que você 'lê' a vida,
que,
quando gosto do que 'leio',
quero que você também o viva!


(para o sonic)

Jogo de azar

Uma vez lançada a moeda,
sob à luz do taciturno,
inevitável era a queda
nesse jogo deveras soturno.

Adiantou-se à coroa,
mesmo a cara dispensaste:
mas se sorte é coisa à toa,
de nada vale esse desgaste.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Cortiço

       Havia mil motivos pra eu não estar ali. Entretanto, há cerca de dois metros de mim, abriu-se um espaçoso portão de ferro, em que ferrugem e verde tentavam laçar um ao outro. Mais rápidos do que qualquer receio, meus pés se/me puseram para dentro.
         A primeira expectativa quebrada foi o surgimento de dez casinhas, lado a lado, ao invés de apenas uma. Havia um largo corredor ao redor do qual os pequenos ninhos humanos se dispunham e onde três vira-latas disputavam por um saco plástico cheio de não sei o quê. Para cada uma das casas, uma janela de ferro e vidro, uma porta de ferro e vidro, um capacho. Para cada capacho que ali morava, um teto de vidro dos mais vagabundos. Derramada na calçada, uma velha.
         Nela não havia cor. O sol secava a sua pele negra da mesma maneira que secava as lágrimas que lhe escorriam aos pés. Mãos na cabeça, cabeça baixa. Cabeça nas mãos, mãos trêmulas. Cotovelos nos joelhos, joelhos em prece. Qualquer um que se aproximasse de seus olhos entenderia o quão difícil era não ser afogado por tamanho desespero.
         Olhamos-nos por poucos minutos, até que ela me convidou a entrar. As palavras eram poucas, os ouvidos eram muitos. Frase após frase, ela me apresentou o seu mundo, certa de que nada poderia torná-lo mais cruel, nem mesmo a vergonha que claramente sentia ao narrá-lo para mim. Nem sei se as palavras se casavam como deveriam, mas eu sabia estar diante do ser humano mais expressivo que já havia conhecido. Irremediavelmente legível. Imediatamente alcançável. Incansavelmente em lágrimas.
         Por três dias estive ali, com ombros e ouvidos. Eles eram dela e ela era minha. Ela se esvaziava da sua podridão e eu me preenchia da sua vida. Não sei se fui suficiente para aquela mulher em algum minuto daquelas tardes, nem mesmo sei se ela gostava de que eu a ouvisse. Só sei que, se somos história de nós e história de outros, ela, com absoluta certeza, permanece em mim. Não me lembro o seu nome.