o melindre dos olhos pequenos
segurou-me desde então
guardava o vício de um doce veneno
pois não soube dizer não
tornaram-se cada vez mais frequentes
tu e eu e teus trapos tão vivos
quando o lúgubre punha-se à frente
sabedoria descomedida, o conselho e a despedida
se não sabemos o que fazer
a literatura nos dá as asas
e se a música é parte do ser
timbram as nossas almas
fazes-me sempre em tua arte
acreditar-me mais capaz
trazes-me um faz de conta loquaz
que insiste em pincelar-me
se algum dia trabalho te dei
foi por haver algo de materno
se há um dia que seja teu
que ele seja, a ti, eterno
(à fabiana)
terça-feira, 30 de novembro de 2010
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
o (re)encontro
Eis que digo que é no caos que são feitas as maiores descobertas. Ela andou algumas milhas sobre o chão cinza, o céu cinza. Jazia em seu rosto um sorriso cinza que cheirava a incompletude. Pôs-se a procurar outras cores debaixo das solas do sapatinho cor de cereja que a acompanhavam desde o início do tapete de neblina pelo qual caminhava. Não compreendia onde teria ido parar o Verde. Sabia que ele não a deixaria por qualquer bobagem, pois haviam selado um compromisso de cumplicidade. E, sendo assim, já não tinha mais esperanças de encontrá-lo.
Foi quando ela sentiu o dedinho da Palavra cutucar o seu nariz. Vinham sem notar uma a outra até que a Palavra avistou uma Pinta muito esquisita no nariz da menina e resolveu parar. Cutucou, mas a Pinta não se mexia. A Pinta morava naquele nariz há tanto tempo que já não conseguia mais saltar dali. O medo tornara-se maior do que a vontade de mudar de casa, mudar de vida.
Então a Palavra começou a imaginar que, se aquela Pinta vivia no nariz da menina há tanto tempo que já não podia se desgrudar mais, ela também já não seria mais capaz de escapar. E ao lado da menina, com o dedinho na Pinta grudada, permaneceu.
Muitas aventuras passaram por elas naquela estradinha acinzentada, até que finalmente encontraram uns tijolinhos amarelos que davam início a uma outra estrada. A estrada era tão, tão apertada, que a menina e a Palavra tinham que se grudar igual a chiclete, pareciam uma só.
Estavam a descansar, cada uma em sua rede de linho, quando a menina viu passar o Verde. Ela mal podia acreditar! Estendeu a sua mãozinha o mais que pôde, mas não conseguia alcançá-lo. Tentaram se comunicar, mas não era possível. Ele não mudou de estrada, e, de onde estava, não podia ouvir porque a menina resolvera seguir os tijolinhos amarelos.
Naquele instante os tijolinhos amarelos e a estrada cinza começaram a se desfazer e foram todos jogados para fora. Não se reconheciam um ao outro, o Verde e a menina, mas sentiram a sensação de que se conheciam de algum lugar. Um mundaréu de contradições corpóreas: as mãos suadas e frias, o coração acelerado e tomado de uma paz única, os lábios secos e a boca enchendo-se d'água. E foi amor à "primeira" vista. Amor que se instala no peito de repente, trazendo segurança e intimidade de anos junto à certeza de que tudo ficará bem. Como se esta história tivesse começado há muito tempo atrás, antes mesmo de que eles tivessem se (re)encontrado.
dulcinéia
nem precisou bater,
silenciosamente não deixou que a porta permanecesse fechada.
pra quê, né?
arrastou o sofá.
ajeitou a frestinha da janela pra que fosse possível ver a
gota de orvalho:
simples, perfeita,
sana a sede do pássaro e tem o feitiço de tudo aquilo que brilha,
engana a gana daqueles que se iludem pelo brilho e deixam de beber.
mas nós?
nós somente estamos olhando.
doce pedaço de agora,
não se esqueças de que quando chegar a hora
não precisas se levar embora
podes voltar, num ir e vir que não tem demora
aliás, podes encostar a tua cabeça em meu colo
pois não estou cansada.
não se esqueças de não deixar que a porta permaneça fechada...
(à jéssica)
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
verborragia, verborrugir, verbo-agir
Queria saber de verdade o que se passa aqui.
Queria ser forte ao ponto de cumprir as minhas decisões, mas não o sou.
Queria ser forte ao ponto de cumprir as minhas decisões, mas não o sou.
Força hoje é decidir agir da forma que parece ser melhor e agir,
mesmo sabendo que tudo o que parece só parece.
E se tudo o que parece só parece, por que eu não posso estar em tudo aquilo que
nunca aparece? Deixa eu viver isso, mundo? Pára de ficar me puxando para o
que todo mundo alcança. Deixa eu acreditar que esse bando de convenções pode
até tentar me controlar, mas que não vai continuar me matando desse jeito.
nunca aparece? Deixa eu viver isso, mundo? Pára de ficar me puxando para o
que todo mundo alcança. Deixa eu acreditar que esse bando de convenções pode
até tentar me controlar, mas que não vai continuar me matando desse jeito.
O normal mata a gente. O normal é mestre na arte de normalizar.
Normalizar, enfiar no comum? Normalizar, normas? Normas. Normatizar.
Normalizar, enfiar no comum? Normalizar, normas? Normas. Normatizar.
Deixem-me, normas. Hoje quero conversar com as minhas dúvidas,
ver se elas me explicam o que se passa aqui.
ver se elas me explicam o que se passa aqui.
Eu que nem tenho tanta certeza de nada. Que bom, não ter certeza de nada é ótimo. Pelo menos começo a ficar paralela às normas. E na paralela, ninguém pega ela. Rimazinha besta!
Foda-se. Apesar de eu saber que minha mãe desaprovaria esta palavrinha-refluxo vindo de mim, digo-a pois acredito que precisamos dessas palavrinhas para conseguirmos nos manter firmes neste mundo-normas-normal. Elas nos ajudam a grudar a palmilha no juízo - socialmente imposto. É... a gente só não levanta da cadeira e espanca aquele imbecil que só enche o saco o tempo inteiro, porque no momento em que nascemos a nossa mamãe querida vai enfiando sementes-regrinhas-básicas na nossa cabeça. Cria uma horta de legumes-posso e verduras-não posso e nos ensina que só podemos agir da forma que o mundo age, de acordo com regras sociais. Em vez de espancar o amiguinho, conversa com ele ou fala mal dele pelas costas, que é o mais provável.
Espero estar um pouquinho melhor amanhã.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
confissão
de dia a dia corriqueiro
em passos apressados
livros e folhas nas mãos
você apareceu
do apressado pouco restou
e não mais perdido, o tempo
já não mais dias e sim anos
me fez inteira.
eu te amo, minha amiga.
(Mariana Rosa)
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
passageiro
Acontece que eu me perco completamente e deixo os meus olhos caírem nas suas coisas. Esqueço-os lá e acabo por me envergonhar da esperança oscilante que me ocupa. Motivo não sei se existe, mas, quem se importa? Há tempos abri mão do 'tudo tem uma explicação'. O que posso dizer é que a febre se alojou em mim desde as primeiras pistas. em silêncio, ela se instalou, pois sabia que se eu a percebesse no mínimo necessário para correr, eu o faria. No entanto, fui derrubada por sua graça. Percebi-a tardiamente, naqueles dias em que, ao te encontrar, subia-me um sufoco. A garganta, mesmo querendo gritar, paralisava-se. Eu, transformada em nuvem de algodão, nunca conseguiria sair dali se não fossem os tapas na cara que viriam a seguir. Cumprimentas a mim como a um de teus amigos e sou arrancada a socos da fantasia. É o meu encontro com a euforia, com uma alegria fulminante, com o ridículo. É o meu encontro contigo.
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