sábado, 5 de fevereiro de 2011

Cortiço

       Havia mil motivos pra eu não estar ali. Entretanto, há cerca de dois metros de mim, abriu-se um espaçoso portão de ferro, em que ferrugem e verde tentavam laçar um ao outro. Mais rápidos do que qualquer receio, meus pés se/me puseram para dentro.
         A primeira expectativa quebrada foi o surgimento de dez casinhas, lado a lado, ao invés de apenas uma. Havia um largo corredor ao redor do qual os pequenos ninhos humanos se dispunham e onde três vira-latas disputavam por um saco plástico cheio de não sei o quê. Para cada uma das casas, uma janela de ferro e vidro, uma porta de ferro e vidro, um capacho. Para cada capacho que ali morava, um teto de vidro dos mais vagabundos. Derramada na calçada, uma velha.
         Nela não havia cor. O sol secava a sua pele negra da mesma maneira que secava as lágrimas que lhe escorriam aos pés. Mãos na cabeça, cabeça baixa. Cabeça nas mãos, mãos trêmulas. Cotovelos nos joelhos, joelhos em prece. Qualquer um que se aproximasse de seus olhos entenderia o quão difícil era não ser afogado por tamanho desespero.
         Olhamos-nos por poucos minutos, até que ela me convidou a entrar. As palavras eram poucas, os ouvidos eram muitos. Frase após frase, ela me apresentou o seu mundo, certa de que nada poderia torná-lo mais cruel, nem mesmo a vergonha que claramente sentia ao narrá-lo para mim. Nem sei se as palavras se casavam como deveriam, mas eu sabia estar diante do ser humano mais expressivo que já havia conhecido. Irremediavelmente legível. Imediatamente alcançável. Incansavelmente em lágrimas.
         Por três dias estive ali, com ombros e ouvidos. Eles eram dela e ela era minha. Ela se esvaziava da sua podridão e eu me preenchia da sua vida. Não sei se fui suficiente para aquela mulher em algum minuto daquelas tardes, nem mesmo sei se ela gostava de que eu a ouvisse. Só sei que, se somos história de nós e história de outros, ela, com absoluta certeza, permanece em mim. Não me lembro o seu nome.
         

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